<font color=0094E0>Força que abalou o fascismo</font>
Durante 28 dias, as candidaturas da oposição abalaram o regime fascista, em acções que envolveram muitas centenas de milhares de portugueses e nas quais fizeram propostas até ali impensáveis de serem defendidas publicamente: instauração da liberdade e da democracia e o fim do fascismo. Nas ruas, multidões apoiam os candidatos, enfrentando a violência da repressão. Mas a ditadura não estava disposta a ceder o poder e falsificou os resultados, pondo o ponto final às ilusões, partilhadas por muitos, de que o derrubamento do fascismo poderia estar à distância de um voto...
Estava-se em 1957. O mandato de Craveiro Lopes estava prestes a terminar e Salazar queria colocar, na Presidência da República, o então ministro da Marinha, o Almirante Américo Thomaz. O anúncio da realização de «eleições» no ano seguinte dá origem a grandes movimentações nos meios oposicionistas. Para o PCP, era necessário encontrar um candidato que pudesse unir à sua volta todas as forças da oposição. Assim se pretendia fazer da campanha eleitoral uma jornada de luta contra o fascismo.
Em breve, surge o nome de Francisco da Cunha Leal, que fora ministro durante a 1.ª República e que cedo entrara em ruptura com os governos da ditadura. O candidato reúne o consenso de várias tendências da oposição e a sua candidatura chega mesmo a ser anunciada num jantar em Lisboa. Mas pouco tempo depois, alegando razões de saúde, acaba por desistir.
Entretanto, já o general Humberto Delgado anunciara a sua intenção de se candidatar à Presidência. Homem desde sempre ligado ao fascismo, a sua biografia política (ver caixa) provocava legítimas desconfianças nos sectores democráticos e progressistas. O PCP encontra um novo candidato, o advogado Arlindo Vicente, anunciado no dia 20 de Abril.
Os primeiros dias
A 9 de Maio, Arlindo Vicente, da Oposição Democrática, e Humberto Delgado, da Oposição Independente, divulgam os seus manifestos de candidatura. No dia seguinte, em conferência de imprensa no Café Chave de Ouro, em Lisboa, em resposta a uma pergunta de um jornalista acerca do que fará a Salazar se for eleito, Delgado afirmou: «Demito-o, obviamente!» A frase corre o País. Em resposta, o governo promove actos de vassalagem a Salazar, que passam a ocupar as páginas dos jornais até final da campanha.
Em Lisboa, realiza-se, no dia 11, uma assembleia de mais de 300 delegados de trabalhadores. São discutidas as condições de vida e exigidos aumentos salariais. A assembleia aborda também as eleições presidenciais e aprova pedidos de amnistia e de abolição da censura. No dia seguinte, a oposição protesta contra actos de censura.
No dia 13, realizam-se acções de apoio a Arlindo Vicente em Vila Franca de Xira e em Sintra. No mesmo dia, junto à sede de candidatura e à residência de Humberto Delgado, são desencadeadas pela PIDE acções de provocação.
As enchentes e a repressão
No dia seguinte, o general ruma ao Porto, onde é esperado por 200 mil pessoas. São, na sua maioria, trabalhadores e reclamam a mudança do regime, liberdades democráticas, amnistia, a abolição da censura. Delgado sai da estação ferroviária em ombros e é acompanhado por uma multidão até à sede da sua candidatura na cidade. O governo reage a tamanha mobilização lançando as forças repressivas contra os manifestantes. Muitos são espancados e feridos e alguns acabam por morrer.
O povo do Porto não cede e, à noite, ocupa o Coliseu onde se realiza uma sessão com o candidato. Durante a sessão e até de madrugada, as manifestações prosseguem em várias zonas do Porto. Saudando o povo, o general afirma: «Tenho o coração a transbordar de esperança, na certeza de que este admirável povo há-de conquistar os direitos cívicos que lhe usurparam.»
No dia 15, Delgado está no Porto, onde prossegue a sua campanha. As suas deslocações são acompanhadas de grandes manifestações. Para protestar contra a censura, alguns manifestantes tomam a dependência do fascista Diário da Manhã. Em muitas empresas da cintura industrial, fazem-se concentrações e algumas chegam mesmo a paralisar para os trabalhadores se poderem dirigir para o centro. GNR, PSP e PIDE realizam novas cargas e, em Vila do Conde e Póvoa do Varzim, provocadores originam confrontos.
No dia 16, Arlindo Vicente faz transbordar o Cine-Teatro de Moscavide, com muita gente a não conseguir entrar. Perante um teatro em pé a escutá-lo, diz: «Temos uma força maior que todas as outras: a que vem da nossa acção e da clareza do nosso espírito.» Quase no final, acrescenta: «O sol há-de nascer e os nosso inimigos, perdidos na escuridão, não terão olhos para o poder contemplar: o sol há-de nascer um dia para nós todos!»
Vencer o medo
No Porto, Humberto Delgado desloca-se a pé para São Bento. Novas manifestações e cargas policiais durante todo o dia e pela noite dentro. Registam-se 30 feridos.
Delgado chega a Lisboa. A aguardá-lo está uma multidão, avaliada em 300 mil pessoas, apesar dos constantes anúncios, na rádio, afirmando que as manifestações eram proibidas. Dão-se vivas aos candidatos e reclama-se liberdade. Grita-se: «amnistia!», «abaixo os tiranos!», «temos fome!».
Os estabelecimentos comerciais da capital encerram: clientes e empregados juntam-se à multidão. Contra o povo, Salazar e Santos Costa atiram tudo o que têm – provocadores, legionários, pides, tanques e carros de assalto, metralhadoras. Mas o povo, dispersado pela força, reagrupa-se uma e outra vez e atira-se às forças repressivas, vencendo-as em alguns casos, e inunda a Baixa de Lisboa.
Ao contrário do que aconteceu no Porto, Delgado não saiu da estação. Polícias e militares cercam o General e fazem-no sair por outro lado, levando-o a casa. Ao mesmo tempo, grupos de provocadores dão vivas a Salazar.
Dois dias depois, Humberto Delgado retoma a campanha, no Liceu Camões, em Lisboa. O ginásio está repleto e no exterior milhares de pessoas manifestam-se. A repressão é, mais uma vez, brutal. Carros de assalto, metralhadoras pesadas, baionetas. Os manifestantes respondem com pedras arrancadas dos passeios e a GNR a cavalo contra-ataca a golpes de espada. A população acolhe manifestantes em fuga e estes reagrupam-se e intensificam os protestos até de madrugada. Corre sangue e há muitas prisões.
Delgado é metido num carro pela PIDE, que o leva a casa.
Rumo à unidade
A 18 de Maio, Arlindo Vicente está em Alpiarça e no dia seguinte em Aveiro. Neste dia, Delgado dirige uma carta ao Presidente da República, Craveiro Lopes, denunciando as acções de repressão durante a campanha, as prisões, as provocações e a censura na imprensa. No dia 20, uma multidão espera Arlindo Vicente no Porto, onde o candidato participa numa sessão no Coliseu.
No dia seguinte, é o candidato da Oposição Independente que regressa ao Porto, desta vez de avião. Novas manifestações e cargas policiais no Porto. No dia 22, vai a Chaves, onde se realiza uma cortejo com milhares de pessoas e uma sessão. No dia seguinte, é a vez de rumar a Bragança, Macedo, Mirandela, Murça, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Régua, Lamego, Castro d'Aire, São Pedro do Sul. Em Viseu, nesse mesmo dia, é esperado por 10 mil pessoas. Em Coimbra, Arlindo Vicente enche o Teatro Avenida.
A 24 de Maio, Humberto Delgado continua no Norte, em Tondela e Albergaria-a-Velha. Em Aveiro, espera-o uma recepção de 25 mil pessoas. No dia seguinte, é Arlindo Vicente que enche por completo o Liceu Camões. A 26, o candidato da Oposição Democrática está no Algarve, onde realiza uma sessão em Portimão. No dia seguinte, passa por Silves, São Bartolomeu de Messines, Loulé, Faro, Olhão e Tavira. Em Faro, promove uma sessão.
Delgado anula a sessão que estava prevista para Braga devido a provocações montadas por milhares de legionários aí estacionados por ordem do governo. No dia 28, manifestantes protestam, na cidade, contra a provocação da véspera. Em Aljustrel, Arlindo Vicente é recebido por milhares de apoiantes. Em Beja, à noite, realiza um comício com 6 mil pessoas.
A 29, comissões de candidatura de Arlindo Vicente reúnem-se em Beja para discutirem os termos de um acordo com Delgado. No mesmo dia, Delgado participa numa sessão em Almada, onde estava previsto o anúncio do acordo entre as duas candidaturas, que passou à história como «Pacto de Cacilhas».
Até às urnas
A acordo entre as duas candidaturas foi concluído na madrugada de 30 de Maio. Apesar da inexistência de quaisquer garantias de um escrutínio livre e justo, decide-se ir às urnas com apenas um candidato de toda a oposição: o general Humberto Delgado. No dia seguinte, a sede de Arlindo Vicente é assaltada pela PIDE e encerrada. Quem lá estava foi preso.
Para as fileiras do «General sem Medo» passam os apoiantes e activistas da candidatura de Arlindo Vicente, bem como muitas das causas do candidato democrático. O acordo assinado (ver caixa) inclui propostas concretas de democratização do País.
No dia seguinte, o candidato desloca-se à Covilhã e a Tortosendo, onde o esperam 5 e 3 mil pessoas, respectivamente. Em Castelo Branco é recebido por 5 mil pessoas e por uma concentração de cerca de 600 soldados, que gritam «liberdade» e «queremos Delgado». Vai à Guarda e termina em Coimbra, onde tem uma recepção com cerca de 20 mil pessoas.
A 1 de Junho, é impedido pela PIDE de ir a Braga e, a 2, registam-se incidentes em várias localidades do distrito do Porto. No dia 3, passa por Évora, Alcáçovas, Aljustrel e Faro. Em Faro, à noite, a polícia cerca o hotel e tenta impedir a sua saída. Há manifestações e tiros. No mesmo dia, a PIDE assalta a sede de candidatura de Humberto Delgado em Lisboa. No Norte, há novas manifestações.
A 4, Delgado continua a percorrer o Algarve. Em todos os locais há manifestações. No dia seguinte, o candidato passa por Beja e é recebido por mais de 30 mil pessoas. No Porto, durante o funeral do estudante morte pela PSP com rajada de metralhadora, realiza-se um cortejo com 3 mil pessoas.
A campanha termina com a prisão de vários responsáveis e activistas da campanha da oposição.
Confirma-se a fraude
alarga-se o protesto
No dia 8, apesar das múltiplas fraudes, provocações e ameaças, centenas de milhares de portugueses vão a votos. No dia a seguir às eleições, Humberto Delgado reúne-se com a imprensa e denuncia todas as irregularidades de que até aí tinha conhecimento: assaltos a sedes, violências e prisões nos últimos dias de campanha e no próprio dia das eleições.
No dia 12, consuma-se a burla, num momento em que já irrompiam protestos em vários locais do País. O Governo anuncia os «resultados»: Américo Tomás é anunciado vencedor, com 76,4 por cento, contra os 23,5 por cento de Humberto Delgado. O candidato da oposição protesta. O PCP edita folhetos a denunciar a fraude. Por todo o País, irrompem manifestações e greves de protesto. O luto alastra pelo país. Nas cidades só se vêem gravatas pretas e «fumos» nos braços.
A 12 e 16 de Junho, 60 mil trabalhadores de Almada, Cova da Piedade, Matosinhos, Alverca, Póvoa, Alhandra, Vila Franca de Xira, Montemor e Baleizão estão em greve.
No dia 21, Delgado procede à impugnação e reclama novas eleições. O governo rejeita a reclamação. Dois dias depois, o General defende a formação de um governo que prepare novas eleições e de uma comissão de inquérito às irregularidades. A 23, em Montemor-o-Novo os trabalhadores param. A repressão assassina José Adelino dos Santos.
As greves continuam. Em Alpiarça, a paralisação é total. O Couço pára durante dez dias com ocupação do posto da GNR em três dias, libertação dos presos e corte das comunicações pelo povo. No dia 30, as paralisações atingem empresas de Olhão, Silves e Grândola.
Nos três dias seguintes, na jornada nacional de protesto contra a burla eleitoral, decorrem protestos simbólicos na região de Lisboa com larga adesão. Nesses mesmos dias, as greves continuam em Beja, Pias, Vale de Vargo, Serpa, Ferreira do Alentejo, Avis, Benavente, Escoural, Aljustrel, Torres Novas, Amadora, Cascais, Aldeia Nova de São Bento. No dia 9, a Covina está em greve.
Mas a luta continua e a repressão não dá tréguas. Raul Alves, operário de Vila Franca de Xira, é assassinado pela PIDE, que o lança do 3.º andar da sua sede. No 5 de Outubro, milhares de pessoas participam na romagem ao cemitério do Alto de São João e na concentração junto ao monumento a António José de Almeida.
Em breve, surge o nome de Francisco da Cunha Leal, que fora ministro durante a 1.ª República e que cedo entrara em ruptura com os governos da ditadura. O candidato reúne o consenso de várias tendências da oposição e a sua candidatura chega mesmo a ser anunciada num jantar em Lisboa. Mas pouco tempo depois, alegando razões de saúde, acaba por desistir.
Entretanto, já o general Humberto Delgado anunciara a sua intenção de se candidatar à Presidência. Homem desde sempre ligado ao fascismo, a sua biografia política (ver caixa) provocava legítimas desconfianças nos sectores democráticos e progressistas. O PCP encontra um novo candidato, o advogado Arlindo Vicente, anunciado no dia 20 de Abril.
Os primeiros dias
A 9 de Maio, Arlindo Vicente, da Oposição Democrática, e Humberto Delgado, da Oposição Independente, divulgam os seus manifestos de candidatura. No dia seguinte, em conferência de imprensa no Café Chave de Ouro, em Lisboa, em resposta a uma pergunta de um jornalista acerca do que fará a Salazar se for eleito, Delgado afirmou: «Demito-o, obviamente!» A frase corre o País. Em resposta, o governo promove actos de vassalagem a Salazar, que passam a ocupar as páginas dos jornais até final da campanha.
Em Lisboa, realiza-se, no dia 11, uma assembleia de mais de 300 delegados de trabalhadores. São discutidas as condições de vida e exigidos aumentos salariais. A assembleia aborda também as eleições presidenciais e aprova pedidos de amnistia e de abolição da censura. No dia seguinte, a oposição protesta contra actos de censura.
No dia 13, realizam-se acções de apoio a Arlindo Vicente em Vila Franca de Xira e em Sintra. No mesmo dia, junto à sede de candidatura e à residência de Humberto Delgado, são desencadeadas pela PIDE acções de provocação.
As enchentes e a repressão
No dia seguinte, o general ruma ao Porto, onde é esperado por 200 mil pessoas. São, na sua maioria, trabalhadores e reclamam a mudança do regime, liberdades democráticas, amnistia, a abolição da censura. Delgado sai da estação ferroviária em ombros e é acompanhado por uma multidão até à sede da sua candidatura na cidade. O governo reage a tamanha mobilização lançando as forças repressivas contra os manifestantes. Muitos são espancados e feridos e alguns acabam por morrer.
O povo do Porto não cede e, à noite, ocupa o Coliseu onde se realiza uma sessão com o candidato. Durante a sessão e até de madrugada, as manifestações prosseguem em várias zonas do Porto. Saudando o povo, o general afirma: «Tenho o coração a transbordar de esperança, na certeza de que este admirável povo há-de conquistar os direitos cívicos que lhe usurparam.»
No dia 15, Delgado está no Porto, onde prossegue a sua campanha. As suas deslocações são acompanhadas de grandes manifestações. Para protestar contra a censura, alguns manifestantes tomam a dependência do fascista Diário da Manhã. Em muitas empresas da cintura industrial, fazem-se concentrações e algumas chegam mesmo a paralisar para os trabalhadores se poderem dirigir para o centro. GNR, PSP e PIDE realizam novas cargas e, em Vila do Conde e Póvoa do Varzim, provocadores originam confrontos.
No dia 16, Arlindo Vicente faz transbordar o Cine-Teatro de Moscavide, com muita gente a não conseguir entrar. Perante um teatro em pé a escutá-lo, diz: «Temos uma força maior que todas as outras: a que vem da nossa acção e da clareza do nosso espírito.» Quase no final, acrescenta: «O sol há-de nascer e os nosso inimigos, perdidos na escuridão, não terão olhos para o poder contemplar: o sol há-de nascer um dia para nós todos!»
Vencer o medo
No Porto, Humberto Delgado desloca-se a pé para São Bento. Novas manifestações e cargas policiais durante todo o dia e pela noite dentro. Registam-se 30 feridos.
Delgado chega a Lisboa. A aguardá-lo está uma multidão, avaliada em 300 mil pessoas, apesar dos constantes anúncios, na rádio, afirmando que as manifestações eram proibidas. Dão-se vivas aos candidatos e reclama-se liberdade. Grita-se: «amnistia!», «abaixo os tiranos!», «temos fome!».
Os estabelecimentos comerciais da capital encerram: clientes e empregados juntam-se à multidão. Contra o povo, Salazar e Santos Costa atiram tudo o que têm – provocadores, legionários, pides, tanques e carros de assalto, metralhadoras. Mas o povo, dispersado pela força, reagrupa-se uma e outra vez e atira-se às forças repressivas, vencendo-as em alguns casos, e inunda a Baixa de Lisboa.
Ao contrário do que aconteceu no Porto, Delgado não saiu da estação. Polícias e militares cercam o General e fazem-no sair por outro lado, levando-o a casa. Ao mesmo tempo, grupos de provocadores dão vivas a Salazar.
Dois dias depois, Humberto Delgado retoma a campanha, no Liceu Camões, em Lisboa. O ginásio está repleto e no exterior milhares de pessoas manifestam-se. A repressão é, mais uma vez, brutal. Carros de assalto, metralhadoras pesadas, baionetas. Os manifestantes respondem com pedras arrancadas dos passeios e a GNR a cavalo contra-ataca a golpes de espada. A população acolhe manifestantes em fuga e estes reagrupam-se e intensificam os protestos até de madrugada. Corre sangue e há muitas prisões.
Delgado é metido num carro pela PIDE, que o leva a casa.
Rumo à unidade
A 18 de Maio, Arlindo Vicente está em Alpiarça e no dia seguinte em Aveiro. Neste dia, Delgado dirige uma carta ao Presidente da República, Craveiro Lopes, denunciando as acções de repressão durante a campanha, as prisões, as provocações e a censura na imprensa. No dia 20, uma multidão espera Arlindo Vicente no Porto, onde o candidato participa numa sessão no Coliseu.
No dia seguinte, é o candidato da Oposição Independente que regressa ao Porto, desta vez de avião. Novas manifestações e cargas policiais no Porto. No dia 22, vai a Chaves, onde se realiza uma cortejo com milhares de pessoas e uma sessão. No dia seguinte, é a vez de rumar a Bragança, Macedo, Mirandela, Murça, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Régua, Lamego, Castro d'Aire, São Pedro do Sul. Em Viseu, nesse mesmo dia, é esperado por 10 mil pessoas. Em Coimbra, Arlindo Vicente enche o Teatro Avenida.
A 24 de Maio, Humberto Delgado continua no Norte, em Tondela e Albergaria-a-Velha. Em Aveiro, espera-o uma recepção de 25 mil pessoas. No dia seguinte, é Arlindo Vicente que enche por completo o Liceu Camões. A 26, o candidato da Oposição Democrática está no Algarve, onde realiza uma sessão em Portimão. No dia seguinte, passa por Silves, São Bartolomeu de Messines, Loulé, Faro, Olhão e Tavira. Em Faro, promove uma sessão.
Delgado anula a sessão que estava prevista para Braga devido a provocações montadas por milhares de legionários aí estacionados por ordem do governo. No dia 28, manifestantes protestam, na cidade, contra a provocação da véspera. Em Aljustrel, Arlindo Vicente é recebido por milhares de apoiantes. Em Beja, à noite, realiza um comício com 6 mil pessoas.
A 29, comissões de candidatura de Arlindo Vicente reúnem-se em Beja para discutirem os termos de um acordo com Delgado. No mesmo dia, Delgado participa numa sessão em Almada, onde estava previsto o anúncio do acordo entre as duas candidaturas, que passou à história como «Pacto de Cacilhas».
Até às urnas
A acordo entre as duas candidaturas foi concluído na madrugada de 30 de Maio. Apesar da inexistência de quaisquer garantias de um escrutínio livre e justo, decide-se ir às urnas com apenas um candidato de toda a oposição: o general Humberto Delgado. No dia seguinte, a sede de Arlindo Vicente é assaltada pela PIDE e encerrada. Quem lá estava foi preso.
Para as fileiras do «General sem Medo» passam os apoiantes e activistas da candidatura de Arlindo Vicente, bem como muitas das causas do candidato democrático. O acordo assinado (ver caixa) inclui propostas concretas de democratização do País.
No dia seguinte, o candidato desloca-se à Covilhã e a Tortosendo, onde o esperam 5 e 3 mil pessoas, respectivamente. Em Castelo Branco é recebido por 5 mil pessoas e por uma concentração de cerca de 600 soldados, que gritam «liberdade» e «queremos Delgado». Vai à Guarda e termina em Coimbra, onde tem uma recepção com cerca de 20 mil pessoas.
A 1 de Junho, é impedido pela PIDE de ir a Braga e, a 2, registam-se incidentes em várias localidades do distrito do Porto. No dia 3, passa por Évora, Alcáçovas, Aljustrel e Faro. Em Faro, à noite, a polícia cerca o hotel e tenta impedir a sua saída. Há manifestações e tiros. No mesmo dia, a PIDE assalta a sede de candidatura de Humberto Delgado em Lisboa. No Norte, há novas manifestações.
A 4, Delgado continua a percorrer o Algarve. Em todos os locais há manifestações. No dia seguinte, o candidato passa por Beja e é recebido por mais de 30 mil pessoas. No Porto, durante o funeral do estudante morte pela PSP com rajada de metralhadora, realiza-se um cortejo com 3 mil pessoas.
A campanha termina com a prisão de vários responsáveis e activistas da campanha da oposição.
Confirma-se a fraude
alarga-se o protesto
No dia 8, apesar das múltiplas fraudes, provocações e ameaças, centenas de milhares de portugueses vão a votos. No dia a seguir às eleições, Humberto Delgado reúne-se com a imprensa e denuncia todas as irregularidades de que até aí tinha conhecimento: assaltos a sedes, violências e prisões nos últimos dias de campanha e no próprio dia das eleições.
No dia 12, consuma-se a burla, num momento em que já irrompiam protestos em vários locais do País. O Governo anuncia os «resultados»: Américo Tomás é anunciado vencedor, com 76,4 por cento, contra os 23,5 por cento de Humberto Delgado. O candidato da oposição protesta. O PCP edita folhetos a denunciar a fraude. Por todo o País, irrompem manifestações e greves de protesto. O luto alastra pelo país. Nas cidades só se vêem gravatas pretas e «fumos» nos braços.
A 12 e 16 de Junho, 60 mil trabalhadores de Almada, Cova da Piedade, Matosinhos, Alverca, Póvoa, Alhandra, Vila Franca de Xira, Montemor e Baleizão estão em greve.
No dia 21, Delgado procede à impugnação e reclama novas eleições. O governo rejeita a reclamação. Dois dias depois, o General defende a formação de um governo que prepare novas eleições e de uma comissão de inquérito às irregularidades. A 23, em Montemor-o-Novo os trabalhadores param. A repressão assassina José Adelino dos Santos.
As greves continuam. Em Alpiarça, a paralisação é total. O Couço pára durante dez dias com ocupação do posto da GNR em três dias, libertação dos presos e corte das comunicações pelo povo. No dia 30, as paralisações atingem empresas de Olhão, Silves e Grândola.
Nos três dias seguintes, na jornada nacional de protesto contra a burla eleitoral, decorrem protestos simbólicos na região de Lisboa com larga adesão. Nesses mesmos dias, as greves continuam em Beja, Pias, Vale de Vargo, Serpa, Ferreira do Alentejo, Avis, Benavente, Escoural, Aljustrel, Torres Novas, Amadora, Cascais, Aldeia Nova de São Bento. No dia 9, a Covina está em greve.
Mas a luta continua e a repressão não dá tréguas. Raul Alves, operário de Vila Franca de Xira, é assassinado pela PIDE, que o lança do 3.º andar da sua sede. No 5 de Outubro, milhares de pessoas participam na romagem ao cemitério do Alto de São João e na concentração junto ao monumento a António José de Almeida.